sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Espelho foucaultiano

No meios dos preparativos no processo de seleção para doutorado, ao abrir o livro do Foucault intitulado de "O corpo utópico, as heterotopias", o pesquisador que tornou um suporte-base essencial para seus trabalhos acadêmicos e recente mestrado em Estudos da Tradução em outro estado depois de graduar Jornalismo. E inclusive tornou um verdadeiro suporte caótico em oferecer umas verdadeiras tapas de realidade diante da verdade "modificada".

É como cair um ficha em formato do meteorito em direção ao Terra no estilo da Laerte.

Por que a menção do Foucault neste blog? Ou impressão de que a postagem está sendo mais acadêmica? Pois bem, sendo uma pessoa surda com depressão (que deve ser diagnosticada de forma equivocada ou por conta de falha de comunicação?) e logo recebo umas suspeitas de ter características de Altas Habilidades/Superdotação - uma famosa sigla AH/SD após dialogar com as certas pessoas surdas diagnosticadas de forma tardia que surpreenderam as expectativas de forma inimaginável sobre minha pessoa.

Comecei a me questionar. Pode parecer que é óbvio, mas o processo tornou a ser mais doloroso do que se imagina. É como se olhar ao espelho que começa a quebrar aos poucos. Parece que não se reconhece mais depois das violências impostas sobre meu corpo utópico apesar de ser tão diferente com outras pessoas surdas da mesma idade naquela época, ou seja, entre pré-adolescência e pré-adulto, que vieram os questionamentos que me deixaram intrigado de certa forma. E me adoecem de certo sentido numas formas mais violentas que já ocorreu na situação de bullying. Dessa vez eu não hesitaria em perdoar para certas pessoas que fazem parte da comunidade surda que é minoritária, o jeito que era me sumir da vidas deles. Por isso fiz ações absurdas que não demandam a reflexão necessária apesar da situação complicada de ter convivido na casa dos pais durante a vida escolar, e pude encarar de dupla violência: não ter aceitação tampouco aprovação depois de ser aprovado no processo vestibular do federal após saberem qual curso selecionado. Que era totalmente diferente do pensamento deles, que queriam que eu fosse profissionalizar em ciências do campo. Mesmo assim, mudei para que eles possam esquecer aos poucos da minha existência.

Como eu havia concluído o curso de Jornalismo apesar dos desafios e violências capacitistas que enfrentei durante quatros anos, tive que mostrar a realidade diante à pessoa que me geriu durante a defesa do trabalho de conclusão. Depois daquela defesa conturbada, eu tinha convidado a minha mãe para almoçar com meus amigos e intérpretes, porém ela simplesmente ofereceu dinheiro e me despediu. 

Sinceramente, isso me atingiu. Por que ela fez isso? Ela não se sente orgulho de que seu único filho que é um mero surdo que concluiu Jornalismo? Deve ser um dos vários motivos de que me motivaram a se mudar para outro lugar de forma inesperada? De forma inesperada pode ser dolorida, mas tornou necessária mesmo.

Me evolui, ou seja, cresci muito vivendo no estado vizinho, especialmente na região litorânea. Como eu não tinha apreço sobre praias e demorei a reconhecer que a praia tornou um ritual para reflexões solitárias e carregadas de álcool, claro. (Após anos de conviver vivendo com a mãe dizendo que bebo muito, não é que ela previu muito apesar do óbvio diante da situação conturbada?)

Após a conclusão do mestrado em Estudos da Tradução, que era uma área inesperada que me instigou inteiramente (ou era mera característica de ser curioso para caralho?), pois bem, e tive que retornar para pampas depois de ter sido demitido numa área empresarial por dois anos (imagina lidar o combo de saúde mental entre trabalho e mestrado com bolsa). O melhor das todas é que não ter retornado na cidade natal, fui acolhido na cidade onde cursei na época da graduação (valorizem amizades inesperadas, por favor!).

Entonces, retornando diante dos apetrechos foucaltianos, logo esbarro com um trecho que faria sentido danado com flashbacks:

Meu corpo, topia implacável. E se, por sorte, eu vivesse com ele em uma espécie de familiaridade gasta, como se com uma sombra, ou com as coisas de todos os dias que no fim das contas não enxergo mais e que a vida embaçou; como as chaminés, os tetos que, todas as tardes, se ondulam diante de minha janela? No entanto, todas as manhas, a mesma presença, a mesma ferida; desenha-se aos meus olhos a inevitável imagem imposta pelo espelho: rosto magro, ombros arcados, olhar míope, sem cabelos, realmente nada belo. E e nesta desprezível concha da minha cabeça, nesta gaiola de que não gosto, que sera preciso mostrar-me e caminhar; e através desta grade que sera precisa falar, olhar, ser olhado; sob esta pele, deteriorar. Meu corpo é o lugar sem recurso ao qual estou condenado. Penso, afinal, que é contra ele e como que para apagá-lo que fizemos nascer todas as utopias. A que se deve o prestígio da utopia, a beleza, o deslumbramento da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas um lugar onde eu teria um corpo sem corpo, um corpo que seria belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal na sua potência, infinito na sua duração, solto, invisível, protegido, sempre transfigurado; pode bem ser que a utopia primeira, a mais inextirpável no coração dos homens, consista precisamente na utopia de um corpo incorporal
(O corpo utópico, as heterotopias, de Foucault, 2013).

Logo o espelho se quebra, mesmo apesar dos sentimentos impostos sobre controle de nossos corpos e nossas emoções. Só que, durante a recente ocasião do casamento do amigo meu, o noivo percebe ao sentir volume do meu corpo elogiando após me abraçar, falei que engordei para a surpresa dele de que ter ultrapassado o peso dele. Logo me questionou se estou feliz por ter aumento do peso. Falei que posso estar feliz de qualquer jeito apesar de ter dado sorriso maroto.

Sei que tenho que me reconhecer quão necessário encarar apesar de tudo. E também tenho que conviver lutando em vez de cair diante das padrões impostas enquanto corpo utópico (vulgo perfeito). E é que demorei a perceber quão óbvio que tenho prazer nas pessoas gordas depois de assumir minha sexualidade (e convivi com as pessoas gordas que me proporcionaram prazer um tanto!), enquanto tenho de lidar sendo visto como twink para outros sem saberem que tenho histórico de transtorno alimentar. 

Sobre a situação de suspeita de AH/SD, não sei se vou responder disso logo por conta de situação financeira que me impediu a realizar exames concisas, que poderiam fazer uma grande diferença. Portanto, enfim... Não vou tolerar que meu espelho segue quebrado após anos e vou colar as peças quebradas. E darei orgulho para família de coração (amigos que conheci e que me acolheram durante anos acadêmicos apesar de tudo mesmo com a diferença absurda).
 
Desde que estou convivendo com monstros na mente para que eu possa seguir em frente apesar de tudo.



66 quilos, de 1,72cm.


sábado, 7 de maio de 2016

Quase três anos

A colação do grau estava passando no auditório lotado, onde as últimas palavras de juramento foram:

Jurem que exerçam a profissão com ética!

Assinatura tremida no papel, canudinho laranja na mão, sorriso nervoso e incertezas preenchendo na mente. Havia concluído o curso de Jornalismo.

- Vai voltar pra cá depois de graduar? - perguntou a mãe.
- Não, vou estar em algum lugar bem distante apenas.

Depois de um mês desse ato, foi aprontar as malas para se mudar para cidade litorânea, onde matriculou-se na federal para renovar novos ares.

*

Ficou um ano morando na casa do namorado, achando que ia melhorar longe de tudo o que lhe lembra. Mas não gerou bons resultados, mesmo que seja usando máscara para que seu namorado não percebesse quão sofrimento que o jovem está sofrendo. Assim gerou os resultados físicos: infecções no rosto e nos pés por ter engolindo sapos todo santo dia. 
Decidiu sair sem explicações e porquês após ter encontrado outro apartamento para ter próprio espaço bem sossegado.

*

Sentado na praia deserta no meio da noite, sentindo a brisa gelada no rosto. Lágrimas saindo dos teus olhos, soltou um longo suspiro enquanto fuma ao lado de fila de garrafas vazias.

Olhou para lua cheia e lembrou da citação de Nietzsche:

- É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela dançante.

Apagou cigarro, levou garrafas para lixeira, caminhou cambaleando até o próximo ponto e pegou o ônibus. A mistura das conversas e risadas dos passageiros deram um choque nas imaginações tortas do jovem bêbado que está com borboletas aplaudindo bravamente e abraçou tua mochila bem forte, pedindo que tudo ficasse em silêncio.


Um ano e meio morando na praia. E três anos sem fluoxetina e rivotril.


domingo, 16 de junho de 2013

Amarguras


A essência da felicidade é não ter medo.
Nietzsche

Depois de me mudar da cidade para estudar na faculdade e morar sozinho, os pensamentos martelam na minha cabeça, durante três anos, e gritando silenciosamente que devo voltar a pedir ajuda psiquiátrica. No começo fico ignorando apenas até receber uma notícia de cadeira reprovada depois de namoro complicado de três meses. No momento, estou no sétimo semestre (só falta apenas um semestre para formar) e tinha pago as mensalidades de formatura. Soube tardiamente através do colega que era possível reverter problema que é quebra de requisito, mas é tarde demais... A coordenadora do curso disse que não tenho outras opções para resolver isso, terei que continuar estudando mais um ano. Essa notícia que me deixou sem chão. Os planos de mestrado e futuro emprego entraram em blecaute e o pior é que o andamento do meu projeto de TCC, que estava indo bem, parou. Tenho faltado algumas aulas, nas reuniões de bolsa e nas reuniões da orientação de TCC (que resultou vários e-mails da minha orientadora sem responder nada).

Esse resultado inesperado que me deixou sem esperanças, mas fui consultar na unidade de saúde, depois de refletir, para pedir encaminhamento psiquiátrico. Não perdi esperança.

Papeladas de encaminhamento na mão. Agora é só falta marcar a consulta com psiquiatra para iniciar o tratamento depois de longo tempo e enfrentar a realidade para não iludir novamente nem perder os sonhos para continuar os estudos. E esforçar mais para não me entregar ao lado negro da força: a depressão.



terça-feira, 28 de maio de 2013

Day 7 — Your Ex-boyfriend/girlfriend/love/crush

Até parecia um verdadeiro e irônico conto de fadas assim receber uma cantada no lugar e tempo onde ninguém imagina assim como receber uma cantada safada, porém sincera no ônibus saindo do campus numa tarde agradável carregada de vento fresquinho vindo dos morros do norte.

Uma leve cutucada no meu antebraço rendeu uma conversa escrita por quinze páginas depois de uma tentativa fracassada de fazer uma leitura labial nos teus lábios tensos e cercados de barba que tornaram uma combinação nada convencional de riso ríspido e conversa acelerada. Número de celular anotado no meu moleskine reciclado, surrupiado e cheio de anotações de cores azul, preta, vermelha e verde ainda mais marcadas com cores vibrantes. Ônibus em movimento tornou o jeito da minha letra bela para horrorosa enquanto tua continua sendo bela e cuidadosa que me deixou boquiaberto.

Várias mensagens de celular contendo perguntas, respostas, gostos, curiosidades íntimas com um grande nível de safadeza me deixaram sem jeito durante três dias depois da cantada no ônibus. Até certo momento em que não esperava assim no meio dos sentimentos que voltaram a ficar tensos, no meio da madrugada chuvosa e gelada, quando recebi teu pedido do namoro enquanto estávamos deitados na cama. Fiz várias perguntas para certificar se você está agindo corretamente.

Repreendi-me depois de receber teu pedido de namoro, tive que aceitar por gosto da novidade, mesmo sabendo que ia dar um problema apesar de tuas implorações mimosas enquanto me abraça.

Foram os três meses carregados de tensões inconvenientes e desamores psicossociais.

Você é uma pessoa mais bizarra e cheia de surpresas para deixar alguém assustado com tuas histórias nada alegres sobre teu pai e relações familiares. Deu para notar que você precisa de alguém que te apoia, te ajuda, te cuida, te protege e te ama de forma crucial. Não sou ideal para você.

Nunca entendo nem vou entender tua mente confusa e dopada pela fluoxetina e antirretrovirais quando você perdeu a casa depois da confusão que teu pai causou e tive atender teu pedido de morar comigo por enquanto. Mas isso levou dois meses morando comigo que me fez pirar!

Não sei como você pode admitir que gostasse dos meus pais só porque conheceu por apenas 10 minutos! Insuficiente demais para entender minha aversão aos pais.

Por falar dos pais, conheci tua mãe, teu irmão gêmeo (PASMEM! Ele é mais diferente fisicamente e emocionalmente de você!) e tua família estranha. Sei que não tem nada a ver com a religião judaica que você tem orgulho de dizer que sabe falar e escrever hebraico e ídiche. (tirando esse orgulho idiota que você pediu que eu não mencionasse nada disso para minha família que possui tradições alemã. [quão panaca desesperado você é!]).

Apesar de sermos virginianos, percebo que nossas aptidões, nossas manias, nossos medos, nossas neuroses e afins não colaboraram a continuação do relacionamento conflituoso. Quer saber uma coisa? Não achei tua atitude correta quando você teve que trancar três cadeiras por justificar das tuas crises depressivas, déficit de atenção e HIV. Você está andando na beira de abismo às cegas, porra! E nunca MAIS VOU PERDOAR pelo o que você tinha dito algo contrário sobre meus amigos que me apoiam!

O tal de HIV que você revelou enquanto almoçávamos no RU. Essa cena foi totalmente bizarra e chocante demais pro meu gosto. Tentei te pressionar para saber como aconteceu e você contou noutro dia. Isso foi uma PURA BURRICE TUA! VÍTIMA DE ESTUPRO ASSIM MAIOR DA IDADE? COMO ASSIM? Tu topou o convite de ir na casa de desconhecido depois de conversar no chat, É ISSO MESMO? PELO AMOR DE DARWIN, NÃO APRENDEU NA ESCOLA? Diria que é estupro consensual. SE FUDEU, GORDO!

Agradeço por me confiar pelas revelações, desabafos e palavras ácidas, menos tua filosofia engenheiroca sobre mundo orgânico e plástico me irrita pacas e tua visão clínica sobre meu mundo silencioso foi totalmente inaceitável! Informe-se bastante com a variedade, aprecie bastante com o momento empírico onde exige o preço alto para apreciar e não se faça papel de vítima tempo todo, se liga!
Ainda mais nunca mais vou te perdoar por ter atrapalhar meus estudos universitários e reuniões da bolsa para atender tuas crises infantis sem noção. Veja só o lindo resultado que ganhei: cadeira reprovada, não vou formar este ano e terei que estudar mais um ano. Satisfeito? VÁ NA MERDA!


Dar um final no relacionamento insuportável foi a melhor das coisas que fiz, isso não foi fácil, viu!

Dessa vez espero que você encontre um parceiro que seja enfermeiro, médico ou psiquiatra. E desejo que teu caminho seja uma happy hour eterno que lhe custa uma fortuna para deixar tua mente lúcida, por enquanto. E tenha excelentes estupros consensuais pós-chat terra (que maldoso sou eu!). 
E as idas aos ônibus voltaram a ser monótonas, porém, bem melhores sem tua presença abobada. Tampouco não vou fazer nenhum escândalo quando te encontro em alguma parte do campus e no RU, prefiro ficar te ignorando...

Se cuida, torresmo porco assado pig!

Beijo, G.

P.S: Vá à quiropraxista para que ajeite tua coluna defeituosa, viu!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"Um simples pergunta pode surpreender...

... daí ninguém espera isso também pode mudar seu destino."

Cinco minutos depois de ônibus ter partido, estava agradável o dia, o menino estava sentindo a brisa vindo da janela levemente desfocada até receber uma leve cutucada no seu braço e virou para atrás. Era um rapaz de barba com óculos falando sem jeito, deu para notar através da leitura labial que estava elogiando dos seus alargadores. O menino tentou falar, ma o rapaz não compreendia e continua sorrindo de forma tímida. Pediu para aguardar um pouco, tirou caderno da mochila e escreveu sobre alargadores. O rapaz leu e fez pergunta sobre curso que o menino faz, respondeu que faz Jornalismo e ele Engenharia Civil. Respondidos. Mas, o rapaz fez outra pergunta que o deixou surpreso de forma inesperada:

Você é bonito. Está namorando ou não?

Uma cantada no ônibus que levou uma longa conversa escrita, mais tarde resultou o namoro entre dois rapazes.





sexta-feira, 13 de julho de 2012

50 dias...

...contemplados de greve nas universidades federais.

Isso soa irreal no blog em que você está lendo, sim.

Na universidade onde estudo está em greve. Seis cadeiras paradas no começo de segundo bimestre, apenas uma cadeira está concluída. Férias antecipadas, com certeza. Mas continuo trabalhando como bolsista para me sustentar, às vezes o custo da vida saí bem caro do que viver em capital ultimamente, mesmo estando morando sob benefício garantido: residência, refeições e direitos garantidos para um estudante. Já que os servidores públicos resolveram dar uma força aos professores, também aderiram na greve. Resultou a paralisação da biblioteca e restaurante universitário, começam os dias de fome intenso que me forçaram a criar mais furos nos cintos, nada mal.

Já que o incômodo me atrapalha: inúmeras mensagens da mãe que ficou sabendo da greve, mesmo sabendo que não tenho alimentando suficiente e gastado dinheiro da bolsa por necessidades superficiais como cigarros que tenho consumido mais do que devia. E pediu que eu voltasse mais rápido possível, mesmo sabendo que estou enrolando para manter uma distância que separa a  "nossa" cordão umbilical.

- Está mais magro ultimamente. Ainda mais teus dentes estão cada vez mais amarelos, pelo amor de deus!
- Dá pra parar um pouco? Vou voltar lá para não escutar tuas reclamações, ponto final.

Sempre termina em volta para minha residência provisória depois das visitas na casa dos pais na minha cidade natal.

Ultimamente, meu estômago não aceita mais leite nem derivados. Intolerância à lactose, bonito resultado que a gastrite me deixou desde final de ano passado. Consumo de lacticínios caiu drasticamente, mesmo tendo compulsões nada convencionais como ataques nas pizzarias e padarias às escondidas que me obrigam a ir no banheiro livrar o que não foi aceito no meu corpo. Diarreia intensa, enjoo, suor excessivo, irritação e mudanças de humor que a intolerância me causa.
Já que consigo vomitar sem enfiar mãos na garganta, sem dificuldade nenhuma. 

- Com licença, vou demorar um pouco no banheiro. - falei, depois de atacar geladeira sob efeitos de maconha.
- De novo? Você não engordou nem uma grama depois das inúmeras laricas, tem vomitado ultimamente? - disse uma amiga próxima, chapada.

Um bulímico maconheiro, que toma clonazepam e fluoxetina em dobro todo dia. 

Autodestruição em modo ativado novamente... até ser interrompido por alguém, de família até amigo próximo. Isso não vai durar por muito tempo, quem sabe.



domingo, 1 de julho de 2012

"Todo recomeço...

...é dolorido e envolve muito sofrimento... Mas se realmente se faz necessario, não adianta lamentar... É preciso ir em frente!"

Acordou cedo, olhou nos lados e estava sozinho na cama. Sua cabeça doí, tinha exagerado a dose de vinho na noite anterior.

A bulimia retornou, ainda de forma intensiva. Mesmo não sabendo do peso atual, só prefere evitar balanças.

Ainda deitado na cama, tirou um cigarro do maço Marlboro Light e ficou tragando enquanto lembra da última relação sexual que tinha feito faz pouco tempo. Um abraço quente, forte e confortável. Cheiro de Áurum e hálito de cerveja nas costas. A posição lembra muito do último relacionamento que teve. Vergonha na cara, por sinal. Um pedido de discrição total. Uma despedida irreal e confusa.

E tinha voltado a tomar fluoxetina e clonazepam faz um mês. Mas não dão efeito imediato. Malditos genéricos!

Nunca se sabe o que acontecerá, só o sentimento da necessidade ainda está presente no seu corpo. Necessidade de recomeçar.



domingo, 20 de maio de 2012

Day 6 — A stranger

Prezado desconhecido,


Prezado? Essa palavra não cairia bem para te cumprimentar nesta carta. Seria um desleal lembrar escrevendo para você depois de ter passado.
Numa noite chuvosa e gelada, eu estava prestes a sair da balada. De repente, você apareceu do nada sorrindo para mim e começou a falar no meu ouvido. Tentei te avisar que sou surdo e percebi que você está bêbado. Me convidou para ir na tua casa, me fez pensar horrores. Mas decidi te levar para minha casa.


Eu não devia ter feito, porque eu estava carente. Me fodi na hora errada...


Um desconhecido sem nome nem idade na cama.
Hálito de álcool nas minhas costas
Dor intensa na parte de baixo
Tentativa fracassada
Nenhum carinho
Nem despedida no final.
Você me fez tomar um porre misturado de rivotril.
Você me fez apagar.
Você me fez magoar.
Tarde demais.
Eu me arrependi.
Pior é que ainda lembro daquela noite.




Vim para dizer umas coisas que você não vale pena e que mereça um lugar de algum inferno dos infernos insuportáveis.
Do que adianta praguejar tudo isso? Não sei teu nome nem idade e não me faço ideia de onde você é! Porque  não entendia nada do que você falou para mim assim bêbado.
Enfim, espero que você esteja morto ou sofrendo em algum lugar insuportável...


Adeus.
G.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Em versão de Christiane F.

No meio da bagunça que seus amigos deixaram: copos vazios e cheios de bebidas alcoólicas, cinzeiros entupidos, mesa carregada de drogas variadas e a televisão exibindo filme pornô.

Estava sozinho num ambiente inóspito e seus amigos haviam ido embora.

Mas...

Não está sozinho, está sendo observado por uma menina que veste de vestido xadrez vermelho que sempre o acompanha e disse, sorrindo:

-  Está tentando fugir dos problemas, mas os problemas sempre andam acompanhados contigo e serão fiéis. até a morte.

8 meses sem clonazepam e fluoxetina. 57 quilos.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Lembranças sem fim

O rapaz disse que tudo ia melhorar se for esquecer dos momentos com o cara de teatro com que tinha relacionado por um bom tempo...

Mas estava enganado.

Ele se encontra irritado no fim do quarto semestre, mesmo que tenha sido aprovado em quase todas as cadeiras, só que pegou apenas um exame. O que deixou o rapaz irritado? Foram as lembranças que não deixaram de desaparecer, resposta cruel.
Teve que mentir para outras pessoas que lhe fizeram uma pergunta:
- Mas você não sente falta dele?
Ele sempre responde a unissona resposta: não.
No fundo, ele está sentindo saudades mesmo. Mesmo depois de ter passado tudo isso como a descoberta inesperada de que ele estar namorando com outra pessoa enquanto relacionavam.

Além das lembranças que o rapaz guarda, tem fumado Marlboro Blue Ice (cigarro preferido do cara) todo dia, esbarra com o cara algumas vezes nos arredores da universidade e do restaurante universitário e sempre passa na frente do bloco 21 onde o cara mora enquanto o rapaz mora no 24. Basta apenas alguns passos para ele poder dizer tudo o que sentia ao cara do teatro! Mas é totalmente impossível, pois não quer se machucar novamente depois de tudo isso.

Sonhos, fumaça de baseados, compulsões e muitas ressacas resumem o cotidiano do rapaz perdido no meio das lembranças mal-sucedidas.


- Psiu! Você está no mundo da lua, guri?
- Hã? Oi!... Só estou filosofando, tudo bem? - apaga cigarro no chão.
- Estou bem... vamos dar uma volta? - sorri o cara.
- Devo aceitar?
Deu uma mão como um convite. E foram caminhando nos arreadores da universidade.



quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"Você não deseja voltar...

...para quando você não tinha perdido nada? Tudo está no futuro." Cassie - Skins 2x09.

O rapaz se encontra cansado, depois de uma noite mal dormida, sentado na beira de cama, fumando free vermelho. Estava enjoado depois de desjejum, com vontade de vomitar. Mas prefere segurar essa vontade.

Tinha acabado de dar uma desculpa para seu companheiro para poder dormir sozinho. Seu companheiro foi embora um pouco chateado pelo humor do rapaz que muda tempo todo.

Seu estômago doía. Era azia. Maldita azia, pensa. Se levantou, foi aproximar no estante e pegou caderno e estojo. Voltou na sua cama. Abriu caderno e tentou escrever, mas sua mão não obedecem o movimento por causa dos efeitos do antidepressivo que ele está tomando. Minha letra está cada vez mais horrível ultimamente, resmunga. Ficaram as palavras em formas garrafais, como se fossem escritas pela uma pessoa bêbada:

É tão bom estar com você, mas tem uma coisa que me perturba ainda.
É o medo de me machucar novamente, mas quero arriscar para ser feliz com você.
Obrigado por existir na merda da minha vida. (seguindo um coração mal desenhado)

Olhou o que tinha acabado de escrever e achou tosca demais. Se levantou novamente, mas na outra direção indo para armário. Lá onde pegou o ansiolítico e tomou um comprimido.

Dessa vez, sou um covarde demais, pensa. E foi deitar na cama esperando o ansiolítico dar efeito.

Havia completado 23 anos naquele dia.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A incerteza

Sentado na banca de plástico de ônibus, sua cabeça não para de girar. Tinha fumado uns baseados.

De repente, passou na sua cabeça o futuro que começa a ser mais realista.

Uma mesa cheia de fotografias, um quadro borrado na parede de tom esverdeado, estava sentado na poltrona antiga um adulto de aparência cada vez mais magra, porém, bem vestido, segurando um cachimbo e tomando martini. Neste lugar voltou seu companheiro, que estava trajando mal, de barba para fazer, descabelado, chapado, do teatro onde ele trabalha. E disse para ele:
- Ainda está em casa aqui? Já está perto de duas da tarde, você devia estar trabalhando. E ainda mais bebendo a merda do álcool.
- Não é a sua conta! Seus olhos estão vermelhos. Faz dias você continua assim. Não vê que estamos com problemas? - Levantou e colocou copo vazio no aparador de bebidas. E começaram a discutir.

Despertou com a vibração, o ônibus tinha começado a partir. Olha no seu lado, estava o companheiro. Sorriu nervoso.

Tinham reatado o relacionamento faz semanas.

Seu corpo treme. Começou a ficar com medo do futuro enquanto observa a cidade iluminada pelos postes em movimento na janela de ônibus.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Day 23 — The last person you kissed



Â.,


As histórias de amor que tinha escutado desde criança não me levaram bem sério, pois era impossível para mim. Mas dessa vez estou em dúvida depois de te conhecer.

Você foi uma pessoa com o que relacionei por muito tempo. Não sei se um mês é muito suficiente. Muito tempo, não?

Falando nisso, tivemos momentos maravilhosos e tristes durante um mês. Me diverti muito te ensinando língua de sinais e fazendo ensaio improvisado com você para se apresentar tudo direitinho nos próximos dias. Me passou a lembrar que fazia apresentações teatrais quando eu era criança. Nunca te contei isso antes, pois é.

Sempre aguardava você voltar dos ensaios no final da noite para conversar, filosofar e viajar no mundo psicodélico. Me divertia com você e seus colegas do teatro na cozinha do alojamento.

Adoro sentir sua barba ralando meu rosto e seus pés quentes tentando esquentar meus pés gélidos enquanto dormíamos juntos nas noites geladas, mas nem conseguia dormir direito e ficava observando você dormindo até acordar para poder dar um beijo de bom-dia para enfrentar mais um dia de aula universitária.

Dias depois, soube que você tinha encontrado com outros caras enquanto eu estava ausente, isso me deixou chateado e com fúria. Não sei se eu merecia assim depois de conversar sério com você, mas você falou que não queria algo mais sério apesar de estar sendo ficantes e me gostava muito de mim. Confesso que não gostei quando você disse que não queria sério comigo, só porque você ficou com outros e eu não, nunca beijei com alguém enquanto relacionava com você.

O nosso relacionamento piorou ao decorrer do tempo, só porque você queria aproveitar e eu queria algo mais sério. Eu estava preocupado com os sintomas físicos que tinha enfrentando e tive que te chamar para conversar sério que podia me ajudar ou não. Não ajudou mesmo, piorou muito. Você saiu chorando depois de ouvir as minhas palavras pesadas ditas e eu nem acreditei o que passei assim.

Depois do tratamento, me melhorei. E o relacionamento não. Como nós moramos em casa do estudante e estudamos na mesma universidade, muitas vezes esbarrávamos sem querer, tentei fingir para não te olhar, mas não consegui pois não sou bom de fingimento. Depois disso, eu fico chorando escondido. Tinha esperança de você me chamar para conversar, mas perdi, porque você não me procurou mais. Decidi a assistir a peça teatral no seu prédio do curso com meus amigos e nos encontramos inesperadamente lá, podia sentir seu sentimento de surpresa quando me viu e eu não conseguia me relaxar assistindo a peça até fim. Depois da peça, chorei nos fundos do prédio. Naquela noite eu pensava que não devia ter feito, mas fiz para encarar...

Na casa não tem mais ânimo, não tem mais bagunça por causa de ensaios improvisados, não tem nenhum resto da risada nem felicidade que você tinha dado, mas só deixou um adesivo na porta do quarto. Ainda penso em você e sonho com você todos os dias. Quando eu sentia mal, eu passava nos arredores do prédio do seu curso durante as noites para refletir um pouco. Pode pensar que isso é tão doentio. Dois meses depois, meu colega do quarto me contou que viu você acompanhado da sua colega na boate. Mas o que não esperava assim: você tinha dito ao meu colega do quarto que estava com saudades de mim. Isso me deixou sem chão, chorei, chorei, chorei...
No meio da madrugada gelada, resolvi dar um oi para você no Messenger depois de um bom tempo, você respondeu. E conversamos, conversamos, conversamos. Foram incríveis três horas de conversa que tivemos no Messenger. Fiquei tão bobo quando você falou que queria me reaproximar depois de passarmos assim. Foi tão bom conversar um pouco no dia seguinte.

Acho que não vamos reatar mais depois de tudo isso, devemos que sejamos amigos apenas. Continuarei sendo fiel depois de te conhecer. Foi muito bom te conhecer que me fez perceber o outro modo de vida louca. E agradeço por me tornar mais sociável.

Um beijo,
G.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A vontade

Quando você segue essa pessoa, a vontade de falar aumenta, mas não consegue, pois seu racional te impede. E acaba se surtando quando essa pessoa não para de aparecer na sua frente tempo todo.


quinta-feira, 14 de julho de 2011

Preciso te esquecer

Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela...
Um dia nós percebemos que as mulheres tem instinto "caçador" e fazem qualquer homem sofrer...
Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável...
Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples...
Um dia percebemos que o comum não nos atrai...
Um dia saberemos que ser classificado como "bonzinho" não é bom...
Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você...
Um dia saberemos a importância da frase: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."
Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso...
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais...
Enfim...
Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos
todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito...
O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras...

Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

Mário Quintana


No meio de tarefas intermináveis, o menino encontra-se estressado, pegou um casaco grosso, cachecol e touca para dar uma volta no campus. Estava gelada a noite, ventando muito. Ele nem ligou o tempo assim, ficou caminhando feito um bobo pensando o que seria de amanhã.
No meio do caminho, parou na frente do bloco 14, entrou subindo ao terceiro andar e bateu a porta. Abriu a porta, estava o rapaz bem alto vestindo as roupas de forma desajeitada. Perguntou ao menino o que precisa. Respondeu que precisava de uma viagem.

Saiu com um saquinho no bolso de casaco.

A lâmpada da cozinha não parava de piscar, estava prestes a queimar daqui a pouco. Começou a acender um baseado que tinha tentado fazer de forma correta inúmeras vezes. Depois das tragadas, o estresse tinha saído embora e começou a rir alto e chorando ao mesmo.

De repente a lâmpada da cozinha apagou, agora está queimada, teve que ir no corredor sómbrio e gelado, tropecando nas coisas deixadas no chão. Seu corpo está começando a perder equilíbrio, caiu na frente da porta do seu quarto. Levantou-se e deparou os adesivos colados na porta do seu quarto, estavam anotados pelos seus amigos. Um dos demais adesivos que foi primeiro a ser visto pelo menino. Estava escrito assim: Save the panda (de boa).
Era um adesivo escrito pelo uma pessoa que o menino tinha relacionado por um mês e começou a dizer:
- Obrigado pela tanta dor de cabeça depois de ter passado assim... Queria te esquecer, mas não consigo. Confesso que ainda penso de você. Bem... Gostaria que você me procurasse para conversar, parece que você está cada vez mais distante de mim.

Percebeu-se que está falando com a porta sozinho, sentou no chão empoeirado do corredor e começou a sentir que sua cabeça está sendo martelando. Não conseguiu mais o que pensar. Seus olhos começam a se molhar. Por que eu mereço assim?
E começou a chorar.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A vida segue


Eu nunca pensei
que pudesse ser pra sempre
que pudesse ser tão forte.
Eu estava certo
que sabia aonde ia
até chegar num ponto
Sob uma luz ofuscante
onde uma verdade
desapareceu.

Mas ninguém tem culpa
Isto é só um outro dia
Diferente dos outros
Igual a outro dia qualquer.

Nós somos tão jovens
Nós corremos os riscos,
Não precisamos de nada
Não existimos
pra ninguém.

Mas ninguém tem culpa
Isto é só um outro dia
Diferente dos outros
Igual a outro dia qualquer.

Os dias são tão curtos,
as estradas são tão longas
e as horas passam.
Os dias são tão curtos,

as estradas são tão longas

e as horas passam.

Os dias são tão curtos,

as estradas são tão longas

e o tempo passa.

Culpa - Nenhum de Nós

- Você acha que pegou AIDS de mim? - perguntou o companheiro chorando, nervoso.
- Acho que sim, mas não temos certeza. Então temos que fazer exame.
- Posso ir embora?
Suspirei dizendo que pode. Saiu chorando a mais.
E começou a chover na noite triste.

Dia seguinte, tive que tirar fotos para a revista laboratorial do meu curso. Estava chovendo forte. Parei para dar uma pausa. Acendi um cigarro, soltei umas baforadas e fiquei observando a fileira de plátanos.

Completamos um mês e alguns dias. Tudo é incerto. Por que as coisas tinham de acontecer assim inesperadamente?

De repente, senti sangue escorrendo dentro das calças e berrei da dor, chorando. Enquanto as folhas avermelhadas de plátano voam ao sabor de vento gelado e forte.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Paixão em choque


Além de te conhecer aos poucos,
você sente atraído pelo mistério
que o amor esconde.
É como estar voando alto,
mais alto
depois de apreciar o sabor doce
que essa sensação rara te dá.

De repente começa o temor...
Você está pronto para namorar?
Está com medo de machucar emocionalmente tua pessoa querida?
Vai arriscar?

É necessário autorizar a pessoa íntima
entrar na tua vida temendo
que descubra os teus segredos doloridos,
berrantes e chocantes?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Return

É possível estar curado, ou seja, livre de transtorno alimentar por um bom tempo?

Reunido com amigos na praça de alimentação do shopping, estava divertindo muito com as piadas. Sentiu um aperto no coração, começou a parar de rir quando viu uma menina de vestido xadrez de cor vermelha ficou o observando parada no meio da multidão. A menina não mexeu nenhum músculo. O rapaz percebeu, olhando na mesa o que havia consumido: macarronada, milk-shake, porção de fritas e uma garrafa média de refrigerante. Mãos tremendo, suor gelado e coração acelerado. A menina apontou na direção ao banheiro, o rapaz levantou sem avisar aos amigos e foi andar rápido. Já no banheiro, bem vazio, porém, cheio de espelhos que começou a atormentar o rapaz: teu corpo ficou tão grande até o ponto de causar nojo de si mesmo. Teus olhos começam a ficar com água. Foi fechar a porta de vidro embaçado e se ajoelhou no piso gélido. Saiu tudo sem nenhuma dificuldade. Observou o resto impuro no vaso sanitário. Levantou, fez descarga e foi limpar as mãos e a boca. De repente, o menino entrou, notou rosto do rapaz como se tivesse algo errado e apontou nariz. O rapaz virou para ver no espelho e ficou perplexado. Não acreditou vendo: tinha muito sangue saindo do nariz. A menina reapareceu sorrindo. A iluminação ofuscante do banheiro começou a diminuir até ficar em escuridão. O rapaz havia acabado de desmaiar.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Day 3 - Your parents

Mãe,

Eu nunca escrevi algo para você ler, já pensei em fazer, mas não tive coragem e tinha medo de que você não me compreender. Agora lá vem a carta que você está prestes a ler...

Mãe, não quero que você sinta culpada por não ter sentido preparada para aceitar o primeiro e único filho, porém, deficiente. Lembro muito bem quando você sempre me levava nas consultas com a fonoaudióloga na capital com muita frequência, lá onde eu recebi os aparelhos auditivos que sempre odiei de usar. Quando eu recuso de colocar essas coisas, você me pressiona só porque quer que eu escute tua voz em vez de comunicar de sinais. Eu sempre imaginava assim nas noites antes de me deitar, pedir a você contar contos de fadas em língua de sinais, mas isso nunca aconteceu nem vai acontecer, você prefere pronunciar as histórias e eu sempre acabo dormindo de tédio, sem entender nada. Foi o meu desejo da infância não realizado.

Você tornou-me uma criança mais mimada, sempre ganhei os presentes mais do que devia e sempre recebia muita atenção tua, temendo que eu sofra de acidente até preconceito. Mas posso dizer que a minha infância foi boa, mesmo que fui uma criança tola achando que tudo é fácil, é porque você sempre me protege de forma exagerada. Por isso, tornei um adolescente rebelde que você nem desejaria assim.

Nosso relacionamento piorou muito quando entrei na fase de puberdade, sempre sentia um asco de você, só porque não comunicamos muito bem e no final das nossas conversas sempre terminam em brigas que prolongam em dias, meses até anos. Ninguém acredita como nós convivemos assim, pois é. Sempre quis fugir da casa para que eu possa viver sossegado, mas não foi possível, porque sentia mal preparado em ter a independência. Várias vezes você me chamou de irresponsável, infantil, idiota, rebelde e disse uma vez noutro dia - o pior das coisas – que eu não devia ter nascido, isso me deixou abalado, acho que foi naquele dia que fugi da casa pela primeira vez.

Nas semanas de crises, você me notou que sempre ando bem estranho. E me levou para posto de saúde do bairro e depois nas consultas com os psicólogos, você ficou arrasada ao saber que fui diagnosticado com depressão e transtorno alimentar. Não, não pode ser! Não me digam que estão falando sério mesmo? – você disse aos médicos e psicólogos. Isso te abalou, com certeza. Sim, eu tenho transtorno alimentar. Você não percebeu que estou sofrendo desde criança, você sempre me dava mimos como lanches, porcarias e tais, por isso engordei demais. Você nem percebeu que eu sempre fazia exercícios exagerados, comendo as refeições pela metade até privar aos poucos. Não sabe que fui zoado por ser mais gordo da escola. Não sabe que eu dei lanches da casa aos meus colegas nos intervalos da escola, quando eu voltava na casa, você me perguntou se eu gostei do lanche e eu respondi, mentindo, que estava uma delícia. Isso durou até ensino médio. Um jovem gordo, infeliz e babaca ou o magro, esforçado e sempre tenta a sorrir, qual você queria para seu filho seja assim?

Lembro quando eu tinha 16 anos, você ficou histérica, na sala de consulta do posto de saúde, quando o médico falou que eu estava pesando com apenas 38 quilos, resultado da gastrite nervosa que a bulimia causou. Pude ver você chorando alto, sendo consolada pelo médico. Dava para ver que você sente culpada pelo tudo o que aconteceu comigo. No ano passado, você redescobriu, depois de mexer meus diários, que voltei a purgar até a privar a comida, pensou que eu tinha sido curado. Mas não fui curado, mesmo. E começou a dizer que fui influenciado pela internet e algumas barbaridades que me deixaram chateado, eu tentei te dizer que não fui influenciado pela internet, sim por motivos óbvios em que passei desde criança. Mas você não percebeu, parece que você mudou muito. Está tornando a ser mais fechada... Uma vez você me perguntou se estou namorando alguma guria. Eu fiquei sem graça com sua pergunta assim. Eu estava no “armário”, então decidi a revelar pra ti, achei que era ótima hora pra contar, mas fui enganado. Você não gostou e começou a falar que fui influenciado na escola por causa das provocações dos colegas, que estou com problemas de cabeça e me implorou que eu namorasse as meninas. Você prefere fingir que não sou gay e nunca mais fez as perguntas sobre o que estou saindo com alguém. Confesso que eu tenho vontade de contar sobre minhas paixões de forma natural. Então, continuo e continuarei a não falar para você sobre os homens que conheci.

Mãe, você não é perfeita nem a melhor do mundo. Mas conseguiu fazer o filho crescer até tornar o jovem de 22 anos. Posso agradecer pelo tudo o que você fez comigo, mesmo errou várias vezes – eu também erro. Enfim, você devia estar orgulhosa por ter filho que estuda na universidade federal e prestes a ter bolsa para ter próprio sustento, só queria que você me dar parabéns para que eu possa sorrir um pouco mais depois de tudo o que passamos.

Obrigado! Não posso dizer que eu te amo, pois não sinto nenhum amor por ti como a mãe, desculpe-me.
Um beijo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O outro lado da Barcelona

Estava enchendo o copo de coca zero na cozinha bagunçada. De repente, entrou um rapaz pelado procurando, encontrou-o, e perguntou se estava bem. Ele sorriu de forma desajeitada e respondeu que estava tudo bem sim, na verdade não estava tudo bem: estava enjoado, dor de cabeça infernal e confuso. E estava pelado, tomando um copo de coca zero.
Tinha acabado de levantar na cama em que as três dormiram: ele, rapaz e a esposa dele. O casal completara um ano de relação.

Fizeram o sexo.

Esse episódio que ele nem esperava assim, se sentia culpado por ter aceitado a ideia de um rapaz (e a esposa dele aceitou a ideia) para experimentar a forma diferente. Mesmo não acreditando que acabou de fazer isso com seus melhores amigos.

Colocou o copo, vazio, na pia cheia de copos usados e garrafas vazias de martini, vodka e uísque que causaram vômitos dele na beira da cama. O rapaz falou, sorrindo, que a nossa noite foi mais maluca que já tinham feito. E ele sorriu mais uma vez, envergonhado.

Fechou os olhos, torcendo que não repetirá, enquanto fumando, mesmo não sabendo se vai acontecer novamente ou não...




Oposto: dois homens e uma mulher.